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Sangue

Sangrava. Sangrava muito. O colchão inteiro estava cheio de sangue. Minha avó correu e disse “Já para o banheiro!”. Ela me fechou lá dentro. Enquanto minha avó acudia minha mãe, eu, ali com os meus sete anos, sem entender nada, fiquei ajoelhada, assustada no chão do banheiro, meio rezando, meio resmungando. Por muitos anos, desconheci a origem daquele sangue. Só fui lembrar e entender o que tinha ocorrido com a minha mãe, quando me dei conta que nós, mulheres, somos obrigadas pelas pressões sociais e por lei a manter uma gestação indesejada. Nunca consegui conversar diretamente com a minha mãe sobre o que vi. Às vezes, acho que ela pensa que eu me esqueci. Talvez por vergonha não fale sobre o que ocorreu naquele dia. Mas, me contou de outro episódio. Disse que uma vez precisou sair, recém-operada, dessas clinicas clandestinas para pedir dinheiro para minha avó, já que havia sido abandonada no local por seu suposto parceiro. É claro que minha avó reprovava. Mas sempre ajudava. ...

Ponciá Vicêncio: entre a memória e a dor.

"O amanhã de Ponciá era feito de esquecimento. Em tempos outros, havia sonhado tanto!" Li dois livros da Conceição Evaristo, "Olhos d'água" e "Ponciá Vicêncio", e já foi possível perceber como ela escreve a partir dos sentidos, utilizando as palavras de uma forma que parecemos ver e tocar aquilo que ela escreve. Suas personagens, carregadas de dor e sentimento, escancaram o que não conseguimos dizer.  Com um pouco mais 100 páginas, o livro "Ponciá Vicêncio" traz a história de Ponciá, uma mulher negra, que se viu obrigada a deixar sua mãe e irmão para tentar "a sorte" na cidade. Partimos de Ponciá, para também acompanharmos a mãe Maria e seu irmão Luandi.  Para uma pessoa branca, como eu, a leitura da história de uma família negra, marcada pela escravidão e pela constante presença do racismo em nossa sociedade, deve ser sempre uma busca por autocrítica e empatia. Penso que a escrita de Conceição também é uma forma de d...

Para quem assistiu "A favorita".

Mais uma premiação do Oscar e mais um vez não temos nenhuma mulher na direção dos filmes indicados para a categoria melhor filme. Isso não quer dizer que as mulheres não estejam produzindo mais, mas claramente significa a manutenção das desigualdades existentes nos altos escalões da indústria cinematográfica.  Contudo, ao menos, vemos mais filmes falando sobre mulheres sem reduzi-las a imagem de "musas" ou objetos de desejos.  Nesse sentido, temos a indicação do filme "A Favorita" na categoria de melhor filme. Apesar de não ser um filme com um teor ou uma temática marcadamente feminista, é claramente provocador ao trazer na centralidade de sua trama três mulheres (Anne, Sarah e Abgail), com diálogos fortes e inteligentes, que estão permeadas pelos seus próprios conflitos e não se reduzem a falar sobre homens. Na verdade, os homens são retratados de forma secundária, alguns são, inclusive, bestificados.  Poderíamos dizer que o filme "A Favorita...

A escritora por de trás de "Frankenstein"

Recentemente assisti ao filme cinebiografia "Mary Shelley", da diretora Haifaa Al-Mansour (conhecida por "Sonho de Wadjda" - confesso que ainda não assisti, mas tenho vontade). O filme conta a história de Mary Wollstonecraft Shelley, filha da feminista e escritora, Mary Wollstonecraft, e do filósofo anarquista, William Godwin.  Como a maioria das cinebiografias, não espere grandes diferenciais argumentativos ou recursos estéticos. De toda forma, gostei muito do filme porque trata da história de uma escritora muito jovem, em uma época em que as mulheres não conseguiam escrever, tampouco publicar seus textos.  A atuação de Elle Fanning e a força e coragem da personagem Mary Shelley são destaques no filme.  Na história da autora Mary, é impossível não notar a importância da sua mãe, uma das vanguardistas na discussão sobre os direitos das mulheres, na identidade e percepção de mundo de Mary Shelley. Para retratar esse elo entre mãe e filha, a...

"Dias de abandono": término em carne viva.

Não é possível falar de "Dias de abandono", da escritora Elena Ferrante, sem mencionar o abandono que todas as pessoas, sobretudo as mulheres, vivenciam (ou podem vivenciar) em seus relacionamentos. Desde muito pequena, vivenciei o abandono do meu pai. Mais do que ter me abandonado aos 10 meses, ele abandonou minha mãe e todos os projetos que ela tinha construído em torno desse relacionamento. Tal como Olga, personagem da narrativa de Ferrante, minha mãe passou pelo desterro do término ao descobrir que seria trocada por outra pessoa. Minha mãe tentou de tudo para se recuperar e cavou fundo, assim como Olga e muitas mulheres. Agora, esse sentimento de "mulher traída", pouco relatado, meio sem lugar, ganha uma força impressionante neste livro, que narra de forma dilacerante o sentimento de raiva, de entorpecimento, desorientação, de falta de vontade de viver e os impulsos mais odiosos que surgem dentro de Olga. Dar espaço a esse sentimento que muitas mulheres viv...

Zélia Gattai: uma "menina atrevida".

O livro escolhido da vez é  o "Anarquistas, graças a Deus" de Zélia Gattai (versão da Ed. Record, 1979). O livro possui um tom memorialista, trazendo as lembranças da infância e adolescência de Zélia Gattai.  No contexto das memórias de Zélia, o livro também apresenta um pouco sobre a história da cidade de São Paulo e da imigração italiana.  Logo nas primeiras páginas é possível perceber que se trata de uma leitura direta, sem muitos rodeios e com uma boa dose de humor. Dividido em pequenos capítulos, aos poucos, somos levados para dentro do universo da família Gattai, no início do século XX em São Paulo.  Com relatos de momentos marcantes da sua infância, Zélia faz um retrato de uma família típica italiana daquela época, que sem dúvida nos lembrará um pouco de famílias conhecidas.  Os pais de Zélia casaram-se muito cedo, Angelina com 15 anos e Ernesto com 18 anos. Um dos personagens centrais na narrativa de Zélia é o seu pai, Ernesto Gattai, f...

Comentários sobre "Hannah e suas irmãs"

"Hannah e suas irmãs" é um filme de 1986, escrito e dirigido por Woody Allen. Irei tentar fazer alguns breves comentários sobre o filme a partir de uma perspectiva feminista. Acredito que quem já assistiu ao filme entenderá melhor e, para quem não assistiu, informo que darei "spoilers". =) Porque tentar discutir um filme do Woody Allen?(que não é nada querido entre as feministas, com razão - leia esse texto que explica grande parte dos motivos pelos quais as feministas repudiam Woody Allen e sua obra: A caça às bruxas está vindo para você, Woody Allen ). Antes de começar a refletir sobre o filme, vale a pena a leitura da carta da filha adotiva da Woody Allen: Leia a íntegra da carta em que Dylan Farrow acusa Woody Allen de agressão sexual . Após a leitura da carta, é difícil assistir aos filmes de Allen com os mesmos olhos.  A verdade é que eu assisti ao filme duas vezes nesse mês para uma aula sobre estudos de cinema. O filme foi passado e comentad...