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Para quem assistiu "A favorita".

Mais uma premiação do Oscar e mais um vez não temos nenhuma mulher na direção dos filmes indicados para a categoria melhor filme. Isso não quer dizer que as mulheres não estejam produzindo mais, mas claramente significa a manutenção das desigualdades existentes nos altos escalões da indústria cinematográfica.  Contudo, ao menos, vemos mais filmes falando sobre mulheres sem reduzi-las a imagem de "musas" ou objetos de desejos.  Nesse sentido, temos a indicação do filme "A Favorita" na categoria de melhor filme. Apesar de não ser um filme com um teor ou uma temática marcadamente feminista, é claramente provocador ao trazer na centralidade de sua trama três mulheres (Anne, Sarah e Abgail), com diálogos fortes e inteligentes, que estão permeadas pelos seus próprios conflitos e não se reduzem a falar sobre homens. Na verdade, os homens são retratados de forma secundária, alguns são, inclusive, bestificados.  Poderíamos dizer que o filme "A Favorita...

A escritora por de trás de "Frankenstein"

Recentemente assisti ao filme cinebiografia "Mary Shelley", da diretora Haifaa Al-Mansour (conhecida por "Sonho de Wadjda" - confesso que ainda não assisti, mas tenho vontade). O filme conta a história de Mary Wollstonecraft Shelley, filha da feminista e escritora, Mary Wollstonecraft, e do filósofo anarquista, William Godwin.  Como a maioria das cinebiografias, não espere grandes diferenciais argumentativos ou recursos estéticos. De toda forma, gostei muito do filme porque trata da história de uma escritora muito jovem, em uma época em que as mulheres não conseguiam escrever, tampouco publicar seus textos.  A atuação de Elle Fanning e a força e coragem da personagem Mary Shelley são destaques no filme.  Na história da autora Mary, é impossível não notar a importância da sua mãe, uma das vanguardistas na discussão sobre os direitos das mulheres, na identidade e percepção de mundo de Mary Shelley. Para retratar esse elo entre mãe e filha, a...

"Dias de abandono": término em carne viva.

Não é possível falar de "Dias de abandono", da escritora Elena Ferrante, sem mencionar o abandono que todas as pessoas, sobretudo as mulheres, vivenciam (ou podem vivenciar) em seus relacionamentos. Desde muito pequena, vivenciei o abandono do meu pai. Mais do que ter me abandonado aos 10 meses, ele abandonou minha mãe e todos os projetos que ela tinha construído em torno desse relacionamento. Tal como Olga, personagem da narrativa de Ferrante, minha mãe passou pelo desterro do término ao descobrir que seria trocada por outra pessoa. Minha mãe tentou de tudo para se recuperar e cavou fundo, assim como Olga e muitas mulheres. Agora, esse sentimento de "mulher traída", pouco relatado, meio sem lugar, ganha uma força impressionante neste livro, que narra de forma dilacerante o sentimento de raiva, de entorpecimento, desorientação, de falta de vontade de viver e os impulsos mais odiosos que surgem dentro de Olga. Dar espaço a esse sentimento que muitas mulheres viv...

Zélia Gattai: uma "menina atrevida".

O livro escolhido da vez é  o "Anarquistas, graças a Deus" de Zélia Gattai (versão da Ed. Record, 1979). O livro possui um tom memorialista, trazendo as lembranças da infância e adolescência de Zélia Gattai.  No contexto das memórias de Zélia, o livro também apresenta um pouco sobre a história da cidade de São Paulo e da imigração italiana.  Logo nas primeiras páginas é possível perceber que se trata de uma leitura direta, sem muitos rodeios e com uma boa dose de humor. Dividido em pequenos capítulos, aos poucos, somos levados para dentro do universo da família Gattai, no início do século XX em São Paulo.  Com relatos de momentos marcantes da sua infância, Zélia faz um retrato de uma família típica italiana daquela época, que sem dúvida nos lembrará um pouco de famílias conhecidas.  Os pais de Zélia casaram-se muito cedo, Angelina com 15 anos e Ernesto com 18 anos. Um dos personagens centrais na narrativa de Zélia é o seu pai, Ernesto Gattai, f...

Comentários sobre "Hannah e suas irmãs"

"Hannah e suas irmãs" é um filme de 1986, escrito e dirigido por Woody Allen. Irei tentar fazer alguns breves comentários sobre o filme a partir de uma perspectiva feminista. Acredito que quem já assistiu ao filme entenderá melhor e, para quem não assistiu, informo que darei "spoilers". =) Porque tentar discutir um filme do Woody Allen?(que não é nada querido entre as feministas, com razão - leia esse texto que explica grande parte dos motivos pelos quais as feministas repudiam Woody Allen e sua obra: A caça às bruxas está vindo para você, Woody Allen ). Antes de começar a refletir sobre o filme, vale a pena a leitura da carta da filha adotiva da Woody Allen: Leia a íntegra da carta em que Dylan Farrow acusa Woody Allen de agressão sexual . Após a leitura da carta, é difícil assistir aos filmes de Allen com os mesmos olhos.  A verdade é que eu assisti ao filme duas vezes nesse mês para uma aula sobre estudos de cinema. O filme foi passado e comentad...

Comentários sobre a autobiografia da Rita Lee.

Depois de quase um ano, escrevo novamente. Espero que a partir de agora o projeto de escrever mais sobre os livros e filmes vá para frente. A última leitura que fiz foi sobre o autobiografia da Rita Lee. Devo dizer que o meu objetivo é ler os livros sob uma ótica feminista. Ou seja, tento buscar ler e observar a realidade a partir de uma lente que traz alguns pressupostos: tentar não essencializar e generalizar as supostas diferenças entre homens e mulheres, que muitas vezes fundamentam a desigualdade de direitos e oportunidades entre os gêneros; não corroborar para uma visão estereotipada das mulheres; não acirrar uma visão difundida de que mulheres vivem disputando entre si; buscar o alinhamento do feminismo com pautas pela diversidade sexual, igualdade racial e justiça social; compreender como a história narrada favorece ou não a autonomia das mulheres etc. É uma tentativa de sempre buscar uma perspectiva que envolva as seguintes perguntas: esse livro (ou filme) retratou a hist...

Ideias

Com esse post inaugural, pretendo esclarecer as motivações que me levaram a criar esse singelo blog. O objetivo do blog é o registro. Mas não quero escrever qualquer coisa. Gosto de deixar registradas as minhas ideias do que leio ou assisto. Assim, parece que as formulo melhor. Ocorre que é difícil manter o hábito de escrever. Por isso, pensei que o blog poderia ajudar. Além disso, outra coisa que me incentivou a escrever foi a leitura de diversos livros de escritoras mulheres. Comecei a ler mais literatura escrita e elaboradas por mulheres depois da faculdade. Eu e algumas amigas formamos um grupo, informal, para leitura de livros escritos por mulheres, em meados do ano de 2012. Já lemos os livros que destaco abaixo e outros que citarei por aqui. Pretendo escrever um pouco sobre os livros que lemos e, ainda, leremos. Se der certo, penso em escrever sobre filmes também. Sejamos compreensivos porque não sou nem escritora, tampouco trabalho com cinema. A intenção é refletir sobr...