Postagens

“Jogo de cena”

Imagem
  A representação da dor pelas mulheres     “Jogo de Cena”, documentário brasileiro de 2007, dirigido por Eduardo Coutinho, faz parte do rol daquelas obras que mudam nossas percepções. O filme é excelente por diversas razões, mas, vou destacar o aspecto das narrativas femininas. A simplicidade inicial do longa-metragem, estruturado a partir dos relatos de mulheres que procuraram pelo diretor após um anúncio colocado no jornal, ganha aos poucos uma profundidade que nos envolve em todos os sentidos. Diretor e equipe selecionam algumas histórias que serão contadas pelas próprias mulheres que a vivenciaram, mas também por atrizes. E, assim, drama real e ficcional se embaraçam. A seleção das histórias das mulheres que se voluntariaram não poderia revelar outro fator senão a representação que as mulheres fazem de suas próprias vidas, que, na maioria das vezes, giram em torno de dois temas: maternidade e casamento. Dentre esses dois temas, a devoção aos filhos aparece co...

Desafio férias 2020

Imagem
Durante as minhas férias quarentenada, cumpri o desafio de assistir um filme por dia. Segue a listinha dos filmes em ordem de preferência e com breves comentários rs: Jogo de cena - Direção: Eduardo Coutinho - Perfeito. Comentários especiais no meu próximo post.  A regra do Jogo (1939)   - Direção: Jean Renoir - Forma e conteúdo se combinam para uma crítica visceral.  The babadook - Direção: Jennifer Kent - Melhor filme de terror psicológico que já assisti.  Red   - A fraternidade é vermelha  - Direção: Krzysztof Kieslowski - Só sentir.  A malvada (All about Eve) - Direção: Joseph L. Mankiewicz - Que bom que conheci Bette Davis.  O casamento de Muriel  - Direção:  P.J. Hogan - Trilha sensacional. Comédia inovadora.  Locke  - Direção: Steven Knight - Reflexões sobre masculinidade em uma viagem só.  Vertigo - Um corpo que cai - Direção: Alfred Hitchcock - Suspense meticuloso.  Inver...

Adoráveis mulheres - O universo de potência das irmãs March

Imagem
“Importa-me mais ser amada. Quero ser amada.” A versão adaptada do livro “Adoráveis Mulheres” (Little Woman, escrito por Loisa May Alcott) para o cinema, realizada pela diretora Greta Gerwig, foi a primeira que assisti. Uma palavra que utilizaria para sintetizar a minha experiência com o filme é encantamento. Greta Gerwig consegue criar de forma grandiosa, com uma beleza sublime estampada nos cenários, vestimentas e paisagens, o universo das irmãs March. As quatro irmãs, Jo March (Saoirse Ronan), Amy March (Florence Pugh), Meg March (Emma Watson), Beth March (Eliza Scanlen), com personalidades e expectativas tão distintas, constroem espaços de criação e arte, mesmo em um momento de escassez, durante a Guerra Civil Americana. Desde o início, os olhos se voltam para Jo March. Nos primeiros instantes do filme, Gerwig, nos coloca no lugar de Jo March, que está criando coragem para apresentar um de seus escritos para um jornal. São instantes em que sentimos que temos que criar co...

Sobre o filme “A história de um casamento”

Depois de muito tempo sumida, venho aqui escrever sobre o filme “A história de um casamento” (Direção: Noah Baumbach). Primeiro, acho que o filme perde muito sem uma analise sob uma ótica feminista. Ou pelo menos, sobre como o feminismo mudou a nossa percepção sobre o próprio divórcio. Muitas pessoas falam que o filme foca em um sentimentalismo e que outros filmes já trataram o tema de forma mais crua. Ainda assim, acho que o filme inova nas nuances, nos equilíbrios dos personagens e na forma como trata o divórcio a partir de aspectos postos a partir do contexto histórico atual. Pode ser uma leitura muito particular e que não se coadune com o que de fato o diretor pretendia, mas me arrisco. Acho temerária também a ideia de demonizar a advogada que atua em defesa de Nicole. Bem, para quem não assistiu, cuidado porque eu vou dar muitos “spoilers”. Na verdade, só recomendo o texto para quem viu. O filme, o tempo todo, tenta trazer os sentimentos e as perspectivas tanto de N...

"O mau exemplo de Cameron Post" e as boas intenções mal informadas

And I pray, oh my god do I pray I pray every single day For a revolution Trecho da música "What's up" de  Linda Perry Em uma das melhores cenas do filme "O mau exemplo de Cameron Post" (Direção: Desiree Akhavan), Cameron, a jovem que foi enviada para um reformatório cristão, que tenta "reverter" a sexualidade de pessoas homossexuais, deflagra toda sua sua vontade de liberdade ao cantar o trecho da música acima (que aliás, já tinha escutado várias vezes, e nunca havia notado sua oposição a " brotherhood of man"  rs ). Só por essa passagem, o filme já valeu a pena para mim.  Mas o filme tem um mérito em si mesmo pelo tema tão espinhoso que tenta tratar: a já condenada, mas sempre ressuscitada ideia de "cura gay".  É incrível como o filme, aos poucos, vai mostrando que as pessoas que cuidam do "reformatório", apesar de terem boas intenções, baseiam suas práticas "de cura" em fundamentos sem q...

Sangue

Sangrava. Sangrava muito. O colchão inteiro estava cheio de sangue. Minha avó correu e disse “Já para o banheiro!”. Ela me fechou lá dentro. Enquanto minha avó acudia minha mãe, eu, ali com os meus sete anos, sem entender nada, fiquei ajoelhada, assustada no chão do banheiro, meio rezando, meio resmungando. Por muitos anos, desconheci a origem daquele sangue. Só fui lembrar e entender o que tinha ocorrido com a minha mãe, quando me dei conta que nós, mulheres, somos obrigadas pelas pressões sociais e por lei a manter uma gestação indesejada. Nunca consegui conversar diretamente com a minha mãe sobre o que vi. Às vezes, acho que ela pensa que eu me esqueci. Talvez por vergonha não fale sobre o que ocorreu naquele dia. Mas, me contou de outro episódio. Disse que uma vez precisou sair, recém-operada, dessas clinicas clandestinas para pedir dinheiro para minha avó, já que havia sido abandonada no local por seu suposto parceiro. É claro que minha avó reprovava. Mas sempre ajudava. ...

Ponciá Vicêncio: entre a memória e a dor.

"O amanhã de Ponciá era feito de esquecimento. Em tempos outros, havia sonhado tanto!" Li dois livros da Conceição Evaristo, "Olhos d'água" e "Ponciá Vicêncio", e já foi possível perceber como ela escreve a partir dos sentidos, utilizando as palavras de uma forma que parecemos ver e tocar aquilo que ela escreve. Suas personagens, carregadas de dor e sentimento, escancaram o que não conseguimos dizer.  Com um pouco mais 100 páginas, o livro "Ponciá Vicêncio" traz a história de Ponciá, uma mulher negra, que se viu obrigada a deixar sua mãe e irmão para tentar "a sorte" na cidade. Partimos de Ponciá, para também acompanharmos a mãe Maria e seu irmão Luandi.  Para uma pessoa branca, como eu, a leitura da história de uma família negra, marcada pela escravidão e pela constante presença do racismo em nossa sociedade, deve ser sempre uma busca por autocrítica e empatia. Penso que a escrita de Conceição também é uma forma de d...