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Adoráveis mulheres - O universo de potência das irmãs March

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“Importa-me mais ser amada. Quero ser amada.” A versão adaptada do livro “Adoráveis Mulheres” (Little Woman, escrito por Loisa May Alcott) para o cinema, realizada pela diretora Greta Gerwig, foi a primeira que assisti. Uma palavra que utilizaria para sintetizar a minha experiência com o filme é encantamento. Greta Gerwig consegue criar de forma grandiosa, com uma beleza sublime estampada nos cenários, vestimentas e paisagens, o universo das irmãs March. As quatro irmãs, Jo March (Saoirse Ronan), Amy March (Florence Pugh), Meg March (Emma Watson), Beth March (Eliza Scanlen), com personalidades e expectativas tão distintas, constroem espaços de criação e arte, mesmo em um momento de escassez, durante a Guerra Civil Americana. Desde o início, os olhos se voltam para Jo March. Nos primeiros instantes do filme, Gerwig, nos coloca no lugar de Jo March, que está criando coragem para apresentar um de seus escritos para um jornal. São instantes em que sentimos que temos que criar co...

Sobre o filme “A história de um casamento”

Depois de muito tempo sumida, venho aqui escrever sobre o filme “A história de um casamento” (Direção: Noah Baumbach). Primeiro, acho que o filme perde muito sem uma analise sob uma ótica feminista. Ou pelo menos, sobre como o feminismo mudou a nossa percepção sobre o próprio divórcio. Muitas pessoas falam que o filme foca em um sentimentalismo e que outros filmes já trataram o tema de forma mais crua. Ainda assim, acho que o filme inova nas nuances, nos equilíbrios dos personagens e na forma como trata o divórcio a partir de aspectos postos a partir do contexto histórico atual. Pode ser uma leitura muito particular e que não se coadune com o que de fato o diretor pretendia, mas me arrisco. Acho temerária também a ideia de demonizar a advogada que atua em defesa de Nicole. Bem, para quem não assistiu, cuidado porque eu vou dar muitos “spoilers”. Na verdade, só recomendo o texto para quem viu. O filme, o tempo todo, tenta trazer os sentimentos e as perspectivas tanto de N...

"O mau exemplo de Cameron Post" e as boas intenções mal informadas

And I pray, oh my god do I pray I pray every single day For a revolution Trecho da música "What's up" de  Linda Perry Em uma das melhores cenas do filme "O mau exemplo de Cameron Post" (Direção: Desiree Akhavan), Cameron, a jovem que foi enviada para um reformatório cristão, que tenta "reverter" a sexualidade de pessoas homossexuais, deflagra toda sua sua vontade de liberdade ao cantar o trecho da música acima (que aliás, já tinha escutado várias vezes, e nunca havia notado sua oposição a " brotherhood of man"  rs ). Só por essa passagem, o filme já valeu a pena para mim.  Mas o filme tem um mérito em si mesmo pelo tema tão espinhoso que tenta tratar: a já condenada, mas sempre ressuscitada ideia de "cura gay".  É incrível como o filme, aos poucos, vai mostrando que as pessoas que cuidam do "reformatório", apesar de terem boas intenções, baseiam suas práticas "de cura" em fundamentos sem q...

Sangue

Sangrava. Sangrava muito. O colchão inteiro estava cheio de sangue. Minha avó correu e disse “Já para o banheiro!”. Ela me fechou lá dentro. Enquanto minha avó acudia minha mãe, eu, ali com os meus sete anos, sem entender nada, fiquei ajoelhada, assustada no chão do banheiro, meio rezando, meio resmungando. Por muitos anos, desconheci a origem daquele sangue. Só fui lembrar e entender o que tinha ocorrido com a minha mãe, quando me dei conta que nós, mulheres, somos obrigadas pelas pressões sociais e por lei a manter uma gestação indesejada. Nunca consegui conversar diretamente com a minha mãe sobre o que vi. Às vezes, acho que ela pensa que eu me esqueci. Talvez por vergonha não fale sobre o que ocorreu naquele dia. Mas, me contou de outro episódio. Disse que uma vez precisou sair, recém-operada, dessas clinicas clandestinas para pedir dinheiro para minha avó, já que havia sido abandonada no local por seu suposto parceiro. É claro que minha avó reprovava. Mas sempre ajudava. ...

Ponciá Vicêncio: entre a memória e a dor.

"O amanhã de Ponciá era feito de esquecimento. Em tempos outros, havia sonhado tanto!" Li dois livros da Conceição Evaristo, "Olhos d'água" e "Ponciá Vicêncio", e já foi possível perceber como ela escreve a partir dos sentidos, utilizando as palavras de uma forma que parecemos ver e tocar aquilo que ela escreve. Suas personagens, carregadas de dor e sentimento, escancaram o que não conseguimos dizer.  Com um pouco mais 100 páginas, o livro "Ponciá Vicêncio" traz a história de Ponciá, uma mulher negra, que se viu obrigada a deixar sua mãe e irmão para tentar "a sorte" na cidade. Partimos de Ponciá, para também acompanharmos a mãe Maria e seu irmão Luandi.  Para uma pessoa branca, como eu, a leitura da história de uma família negra, marcada pela escravidão e pela constante presença do racismo em nossa sociedade, deve ser sempre uma busca por autocrítica e empatia. Penso que a escrita de Conceição também é uma forma de d...

Para quem assistiu "A favorita".

Mais uma premiação do Oscar e mais um vez não temos nenhuma mulher na direção dos filmes indicados para a categoria melhor filme. Isso não quer dizer que as mulheres não estejam produzindo mais, mas claramente significa a manutenção das desigualdades existentes nos altos escalões da indústria cinematográfica.  Contudo, ao menos, vemos mais filmes falando sobre mulheres sem reduzi-las a imagem de "musas" ou objetos de desejos.  Nesse sentido, temos a indicação do filme "A Favorita" na categoria de melhor filme. Apesar de não ser um filme com um teor ou uma temática marcadamente feminista, é claramente provocador ao trazer na centralidade de sua trama três mulheres (Anne, Sarah e Abgail), com diálogos fortes e inteligentes, que estão permeadas pelos seus próprios conflitos e não se reduzem a falar sobre homens. Na verdade, os homens são retratados de forma secundária, alguns são, inclusive, bestificados.  Poderíamos dizer que o filme "A Favorita...

A escritora por de trás de "Frankenstein"

Recentemente assisti ao filme cinebiografia "Mary Shelley", da diretora Haifaa Al-Mansour (conhecida por "Sonho de Wadjda" - confesso que ainda não assisti, mas tenho vontade). O filme conta a história de Mary Wollstonecraft Shelley, filha da feminista e escritora, Mary Wollstonecraft, e do filósofo anarquista, William Godwin.  Como a maioria das cinebiografias, não espere grandes diferenciais argumentativos ou recursos estéticos. De toda forma, gostei muito do filme porque trata da história de uma escritora muito jovem, em uma época em que as mulheres não conseguiam escrever, tampouco publicar seus textos.  A atuação de Elle Fanning e a força e coragem da personagem Mary Shelley são destaques no filme.  Na história da autora Mary, é impossível não notar a importância da sua mãe, uma das vanguardistas na discussão sobre os direitos das mulheres, na identidade e percepção de mundo de Mary Shelley. Para retratar esse elo entre mãe e filha, a...